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domingo, 7 de agosto de 2016

Resenha: A cidade sitiada, de Paulo Tabatinga

O livro "faz um apelo desesperado para que Teresina seja estacionamento de poetas"

01/04/2016 13:28h

Poesia é um estado da alma, e por isso mesmo do corpo. A pessoa onde a poesia surge é, de certa forma, não mais dona de si. Se não fosse assim, por que então aquele momento de Poesia inundaria a vida inteira da pessoa de Drummond? Além disso, um certo Pessoa diz que “todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem”. Calculando os termos desta operação podemos concluir que poesia é uma paisagem. Mas, fundamentações teóricas a parte, uma olhada no livro a cidade sitiada, de Paulo Tabatinga, nos faz ver, literalmente, como a poesia é uma paisagem.
  Uma cidade é composta, entre outras coisas, pelos seus habitantes. Mas, ao mesmo tempo em que um indivíduo habita uma cidade, ele é por ela habitado. Quando vivemos num lugar, o lugar também vive em nós. Esta relação dialética, de habitar e ser habitado pela cidade, é a matéria-prima sobre a qual Paulo Tabatinga trabalha para expressar a si e a cidade, através da fotografia e da poesia. O livro vai muito além de uma mera tentativa de ilustrar com imagens o texto poético, ou de “explicar” a foto por meio do texto. Há, em algumas páginas, fotos que se ligam diretamente ao texto. Mas, se nesses momentos o autor diminui o quadro de nossa imaginação, por ouro lado nos convida a focar em coisas simples, e este é o ponto forte do livro: a beleza, às vezes melancólica, da simplicidade.
  Em a cidade sitiada a palavra não empobrece a imagem, nem o contrário. As fotografias mostram as grandezas de uma pequena Teresina, e pequenez de uma cidade que quer ser “grande”. Por provocarem um impacto imediato, as fotografias casam com os poemas. Estes são simples, curtos, alguns tendem ao aforismo, e dizem muito com poucas palavras. Levam-nos à reflexão crítica, como em “TV Aberta: a TV aberta é a coisa mais fechada que eu conheço”. Até porque, como o autor define páginas à frente, mídia é um “laboratório onde se criam realidades”. A nostalgia irônica tem seu lugar em poemas como “Cine Rex”: “Era muita putaria/ mas ficava sério/ para passar filme de semana santa”.

  De forma geral, o que vemos e o que lemos em a cidade sitiada faz dele um bom livro. Como a voz da foto é muda e o silêncio da poesia é som, o casamento tem um final bonito. Infelizmente, não feliz. Isto porque o livro é também a denúncia do crime político que se comete em nome do dinheiro, que transforma a capital numa cidade sem alma. Tabatinga usa a fotografia como janela da poesia, e faz um apelo desesperado para que Teresina seja estacionamento de poetas. 
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Sobre o resenhista:
André Henrique M. V. de Oliveira é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Autor de "Sem pé nem cabeça: esparsos escritos sobre coisas algumas", publicado em 2015. Professor de Filosofia do IFPI.

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