Poesias
Poesias e Fotografias de Paulo Tabatinga
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segunda-feira, 11 de maio de 2026
A nova poesia piauiense: Versos mínimos, poesia máxima.
Dílson Lages Monteiro - professor]
Especial para Entretextos
Nas duas primeiras décadas do século XXI, um subgênero de poema ganhou forte simpatia entre leitores. A circulação dele tonificou-se a tal ponto que, não raro, seu lugar no sistema literário leva-o a ser comparado ao soneto no século XIX e na primeira metade do XX. O haicai se consolidou como um tipo de poema já aclimatado à tradição literária nacional e validou uma tendência ou corrente de poemas escritos com poucos versos, mas sem descuidar da plurissignificância própria do discurso literário. De igual modo, poemas curtos de matizes variados são hoje cultivados com consciência poética e encanto, arrebatando leitores fascinados pelo vigor da concisão que comunica ou sugere muito.
Todo esse cenário é uma construção cultural. Reflete um contexto de absorção de traços linguísticos de um percurso que se inicia com a imigração japonesa, nas primeiras décadas de 1900, e se prolonga com a criação de grêmios literários, espécie de círculos de leitura, de colunas em jornais, passando pela incorporação de concepções oriundas do concretismo, nas décadas de 1950-60, da literatura marginal de 1970 e chega às primeiras décadas de 2000. Agora, porém, incorporando intersemioses da linguagem digital e de domínios discursivos amplamente contaminados pela visualidade, entre os quais, destaca-se o campo publicitário. Reflete, ainda, as rupturas expressas pelas contribuições do modernismo, notadamente, a coloquialidade, a abordagem de temas cotidianos e banais, a abjeção ao solene, a diluição das fronteiras entre a prosa e a poesia, o humor dessacralizador, marcas que encontram na poesia oswaldiana ilustração literal.
Na literatura de autores piauienses, a poesia de traços mínimos fortifica-se inicialmente, entre 1970 e 1980, em autores como Durvalino Couto, Elias Paz e Silva e Rubervam do Nascimento. Para eles, cortar excessos e valorizar a dimensão plástica da palavra são condições indissociáveis da escritura poética, refletindo, em expressivo número de poemas de poucos versos (ainda que isso não se apresente como tônica dominante em todos), mas de “linguagem revertida de significado ao máximo grau possível”, conforme preconiza Ezra Pound.
Essa tendência encontrou em Caio Negreiros e Marleide Lins, esta com poética nascida na literatura marginal de 1970-80, autores conscientes de que escrever menos pode ser significar mais. Negreiros foi pioneiro em 1990, ao criar um bem-acabado projeto de divulgação de poesia em meio virtual, o site Não Ser, no qual poemas mínimos ganhavam movimento, cores e sons. Poesia concebida como uma mescla de linguagens para alterar profundamente o modo de ler.
Nas últimas décadas, essa poesia mínima encorpou-se. Guardadas as especificidades de cada qual no plano da expressão e no do conteúdo, em autores como Ítalo Lima, Carlos Castelo e Alexandre Nolleto, essa forma de dizer achou amparo perfeito. A publicidade e a linguagem dos meios digitais configuram-se vivas no apelo ao leitor, por meio de vocativos e verbos no imperativo; do efeito de choque por rupturas abruptas; da própria disposição gráfica do verso simulando layout publicitário com foco mais no visual e não no texto verbal em si; da utilização de registros e usos variados, assinalando o hibridismo de gêneros textuais e do emprego regular de paródias e paráfrases inventivas.
Em Carlos Castelo, vigora o poema-piada ao modo de Oswald de Andrade e o haicai, ou uma de suas variações, o senryu, haicai sombrio, com ênfase na sátira. Para ele, interessam temas como os dilemas políticos sociais, o cotidiano existencial ou a metalinguagem. Destacam-se ora a corrupção, a violência, as agruras da classe média; ora o amor, a morte, a vaidade. Em linguagem altamente sonora e condensada, caracterizada pela supressão da narratividade e uso reiterado de adjetivos. Em Castelo, a voz lírica não quer narrar, quer brincar com a linguagem, para subliminarmente, pelas vias do estético, realizar alguma crítica à condição humana ou às estruturas sociais.
Já em Italo Lima, a expressão tem ritmo acelerado pela fragmentação da sintaxe, em enumerações ou frases nominais, metáforas paradoxais, nas quais o sentimento é corporificado em quase slogans para abordar a solidão, o sofrimento, a angústia ou personificar o desejo. No léxico do poeta, palavras do campo do erótico não apenas expressam dramas emocionais como também transformam o poema em gatilho para uma sensação. O poeta aproxima sua dicção do dizer das redes sociais, em escrita curta, direta, compartilhável. Nela, transparece um sujeito lírico dilacerado, vivendo entre a dor e o desejo.
Na poética de Alexandre Nolleto, o poema mínimo renovou-se pela exploração metalinguística do suporte e pelo hibridismo com a frase de efeito. Em muitos de seus versos, confundem-se e se complementam linguagem e suporte. O meio de circulação impôs ao poeta-publicitário a criação de efeitos de sentido que ele alcançaria com postagens no Twiter ou no Instagram, espaços em que originalmente seus poemas ou aforismos se publicizaram, para, depois, semanalmente, com sucesso, por considerável período, nas páginas do jornal O Dia, de Teresina-PI.
Em seus versos ou aforismos, a urgência enunciativa e o envolvimento do leitor se fortalecem pelo humor e tom de conselho, com leveza; em poemas de linguagem cotidiana, neo-românticos, ou de flashs existenciais urbanos. Um ponto conta muito a favor do envolvimento do leitor: cada aforismo carrega intenção poética, ou cada poema, em tom de conversa, é um aforismo, de positividade e superação, destinados, sobremodo, à mulher, com ressaibos de autoajuda ou espiritualidade.
Há que se dar relevo ao poema curto, em perspectiva próxima aos poetas-publicitários, à carpintaria poética de Climério Ferreira. Vindo do terreno fértil da comunicação, sua poesia opera na seara da economia verbal em crítica aberta à sociedade do consumo ou de exaltação da memória ou de temas existenciais mesclados à metalinguagem, ao amor, à solidão. Entra em cena aqui, o aluno de criação literária da oficina de Cyro dos Anjos, ou o professor de Comunicação da Universidade de Brasília, operando “ganchos frios” pelas vias da concisão.
A poesia condensada tem em Luiz Filho de Oliveira e Daniel Glaydson, também, representação de voz própria. Em seus poemas curtos, Luiz Filho ora se volta para as vivências do amor físico, ora explora sensações dos extratos fônicos, ora metaforiza o corpo, ora critica injustiças sociais. Nesse particular, entra em cena a voz lírica embebida pela força demolidora da sátira. Quer escreva em tendência lírica, quer, em satírica, o plano da expressão se espelha em linguagem cheia de antinomias, jogos de palavras e paródias, em intertextos com a tradição literária de poetas como Camões, Gregório de Matos, Fernando Pessoa, Leminiski e Oswald de Andrade.
Em muitos de seus poemas, o experimentalismo sobressaí como alvo do poeta, desemborcando prioritariamente nas camadas lúdicas da palavra. Dessa concepção, apropria-se também, em poemas mínimos, Daniel Glaydson, embora não seja a tônica principal de seu fazer. Ele investe em capturar o essencial do lirismo, por signos ou associações relacionados à natureza, a um conceito (ou à própria linguagem poética), à tentativa de capturar o hedonismo do instante, ao plano do som ou do movimento do corpo. Estudioso da literatura e, especialmente, da feição espiritual da linguagem, canaliza o discurso literário para metaforizar nuances subjetivas do existir.
A concisão poética é traço do apelo visual e cinematográfico perseguido por Paulo Tabatinga e Francisco Gomes. Para eles, interessa a cidade em seu vazio existencial, as transformações paisagístico-afetivas e as contradições do capital. A linguagem icnoclasta igualmente se torna motivação, não em sua positividade, mas no que produz de angustiante. Em tom de coloquialidade e sintaxe fragmentada, cada rua, cada prédio, cada sentimento são gritos de desespero e incerteza. Mesmo sentimento poético dos poemas curtos de Rodrigo M. Leite, em cujos versos, a cidade frita, polissemanticamente falando.
A condição feminina aparece, em estado de escritura contida, em poemas de nomes como Graça Vilhena, Laís Romero e Luíza Cantanhede. Em Vilhena, os desencontros e encontros do amor e da solidão se dispersam na observação do cotidiano da cidade, sem sentimentalismo. Sua dicção é substantiva, de léxico simples, sem abandonar os tropos, elevando a ternura, ora alegre, ora melancólica ao ponto alto do dizer. Em Laís Romero, a condição feminina fundamenta grande número de suas escolhas temáticas, como materialização da liberdade e resistência que evoca a figura feminina ao longo do último século. Não cabe na poesia de Laís, o panfletarismo. A linguagem se firma como primeira natureza na condição de ser mulher, ser mãe, ser trabalhadora. Ou para poetizar o cotidiano urbano e grandes dilemas sociais de seu tempo. Também o faz Luíza Cantanhede, com um traço que é somente dela: o desfolhar da paisagem dos babaçuais, em escolha vocabular que insere o leitor nas dores e resistências das trabalhadoras manuais, especialmente do campo.
Outra tendência de poesia condensada entre autores piauienses prende-se à fusão entre memória e minimalismo. Dela, participam poetas como Marcos Freitas e Diego Mendes Sousa. Em Marcos Freitas, interagem o rural e o urbano, em conflito, sobrepondo-se aquele a este em um grito ecológico de reconhecimento do valor da natureza para os ecossistemas ou de mera admiração de sua grandeza. A fauna e flora são marcadores temporais ou da paisagem, evocando memórias recentes ou antigas, em haicais ou poemas curtos. Na poesia de Diego, não obstante não seja o minimalismo o tom de destaque da escritura, vez que sua dicção se ancora na discursividade narrativo-conceitual, alguns poemas condensados evidenciam a memória lírica, em poemas centrados nos movimentos e sensações da paisagem litorânea piauiense.
Em versos metafísicos, Lucas Villa cultiva a tendência ao minimalismo, em vários poemas, construindo metáforas conceituais. Fundindo descrição e narratividade à argumentação, pela metalinguagem, elabora versos curtos, em que a sintaxe fragmentada une imagem e som em um único signo e provoca no leitor a simulação do próprio ato de respirar ou de pensar.
Nessa mesma linha de literatura mínima, é que se desenvolve sistematicamente o cultivo do haicai em autores como Thiago E, William Feitosa Jr, Bruno Italo, João Batista, Luiz Ayrton Santos Junior, José Luiz de Carvalho, José Veras e Dílson Lages, este, o escrivinhador destas notas. Para eles, interessa, principalmente, a percepção objetiva do instante e a comparação implícita, o que os mantêm ligados à tradição do haicai, muito embora cada um deles tenha suas marcas individuais e de ressignificação do gênero. Nessa mesma diretriz, está mais de uma dezena de autores do Piauí, com maior ou menor intensidade no cultivo dessa manifestação poética, conforme evidenciado na antologia Haicai do Japão ao Sertão, organizada pelos professores José de Nicola e Cineas Santos.
Nessa antologia, figuram os poetas do Piauí Adriano Lobão Aragão, Climério Ferreira, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Rogério Newton, Rubervam Du Nascimento, Thiago E, Val Melo e Cineas Santos.
A propósito, Cineas Santos, de há muito, reverberando marcas linguísticas do fazer literário de 1970, em interlocução com práticas contemporâneas, cultiva o gênero com interesse continuado, em poesia mínima voltada às coisas “miúdas” do cotidiano, de tom ecológico e ironia certeira, às vezes conceitual, outras, em diálogo com a pintura, a fotografia, o cinema, para se fazer ver, ouvir, sentir a identidade piauiense. Nos haicais que designa de “sacadas”, o lirismo nasce fácil, com imagem e ritmo, em correlações que, feitas para brincar com sensações, põem no mesmo patamar conceitos opostos, em versos às vezes aforísticos, às vezes descritivos ou metalinguísticos, com poesia pingando de cada flor ou letra.
Por essas e outras, vale muito a pena ler a poesia mínima, de significado máximo, dos poetas piauienses de hoje. É certeza de imersão no arrebatamento do instante. O aqui e o agora que, para além da presentificação do momento, geram os mesmos efeitos do fascínio do mundo virtual: o impacto do choque visual como presente absoluto.
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Paulo Tabatinga
Eu não sou Jesus
Mas carrego cruz
Feito um condenado
Sou filho da luz
E por isso mesmo
Sou crucificado
Paulo Tabatinga.
sexta-feira, 20 de março de 2026
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